AÇÕES SUSTENTÁVEIS INTERESSAM A INVESTIDORES, MAS NÃO A CEOs

Prêmio

Falta de interesse por parte de empresários em ações de sustentabilidade ambiental preocupa professor do Isae/FGV; maiores interessados são eles próprios

O abuso de fontes de energia não-renováveis e a emissão de gases responsáveis pelo efeito estufa são exemplos de como o ser humano coloca em risco o legado que deixará para as gerações futuras. Por isso, se fazem urgentes medidas para mitigar o impacto sobre o meio ambiente. Porém, nem todos veem a situação dessa maneira. Citando uma pesquisa realizada pelo Massachussets Institute of Technology (MIT), Cleverson Vitório Andreoli, professor de mestrado do Isae/FGV, em Curitiba, e diretor da Andreoli Engenheiros Associados, mostra que os CEOs (Chief Executive Officers) não enxergam as mudanças climáticas, por exemplo, como um problema urgente.

O instituto fez uma pesquisa com dois mil executivos de grandes empresas globais e chegou à conclusão que apenas 23% deles consideram “extremamente urgente” e “muito urgente” as mudanças climáticas para as suas empresas.

Os investidores das bolsas de valores, por outro lado, têm uma visão completamente diferente. Metade (51%) afirmou que companhias com performance sustentável aumentam o potencial para criação de valor ao longo do tempo e, para 38% dos investidores, empresas com esse perfil aumentam a lucratividade de seus investimentos. “Os investidores levam a questão da sustentabilidade a sério, e os CEOs não”, conclui Andreoli.

“O planeta tem ultrapassado vários de seus limites”, ele reitera. “Isso faz com que tenhamos um desafio se quisermos que o planeta volte aos padrões de sustentabilidade ambiental.” Esse desafio é posto tanto a governos, quanto a empresas e pessoas comuns. Pequenas atitudes como abastecer com álcool em vez de gasolina, locomover-se de bicicleta, utilizar equipamentos que consomem menos energia e reduzir a quantidade de lixo produzida são ações que não dependem de ninguém, a não ser de nós mesmos.

Mas as empresas assumem um papel de protagonismo nessas mudanças, observa o engenheiro, pois elas têm um poder de mobilização muito grande. E adotar medidas sustentáveis não necessariamente aumenta os custos operacionais de uma companhia.

Pelo contrário: “A adoção de práticas sustentáveis pode aumentar ou melhorar o desempenho das empresas”, salienta Andreoli. Um documento publicado pela Harvard Business Review – “Como sobreviver às mudanças climáticas e continuar caminhando para negócios sustentáveis” –, aponta caminhos pelos quais os líderes empresariais devem trilhar para promover a sustentabilidade ambiental e, ao mesmo tempo, melhorar sua eficiência econômica.

Aproveitamento de resíduos sólidos
Um exemplo tem relação com os resíduos sólidos. Todo lixo deve ser entendido como matéria-prima colocada em local inadequado, alerta Andreoli. Afinal, todos os resíduos sólidos que sobram ao final do ciclo de vida de um produto foram adquiridos pelo preço de uma matéria-prima. “O melhor aproveitamento da matéria-prima, dos resíduos sólidos aumenta a eficiência da empresa porque, primeiro, reduz o custo da matéria-prima e, segundo, porque reduz o custo da destinação final dos resíduos”, ele avalia.

Eficientização energética
Outro estudo, da Yale University, mostrou que o aumento da eficientização energética é capaz de reduzir 28% da energia produzida no mundo, destaca o professor do Isae/FGV. “Isso significa que a eficientização tem sido entendida como uma fonte energética.” Além de contribuir para a redução da energia produzida, a eficientização energética tem um “payback” (tempo de retorno do investimento) bastante curto, de dois a cinco anos, aponta Andreoli. “E ainda por cima existem fontes de financiamento nacionais que financiam esse tipo de projeto.”

Pegada de carbono
A Harvard Business Review também apontou a quantificação da “pegada de carbono” como uma maneira de obter competitividade e diferencial em um planeta que passa por aquecimento global. Quantificar a pegada de carbono, segundo explica Andreoli, é fazer o inventário das emissões de gases de efeito estufa nas suas atividades. “Toda empresa que quiser ter uma política de sustentabilidade em relação às emissões de CO2 têm que começar fazendo um levantamento para saber quais as atividades que mais geram emissão de gases do efeito estufa.”

Em segundo lugar, é preciso definir os indicadores de intensidade carbônica, que mostram a quantidade de emissão de gás carbônico para cada quilo de produto colocado no mercado, por exemplo. “A partir daí, eu devo avaliar para cada um dos meus processos quais os riscos e oportunidades associados às emissões de gás carbônico.” Essa mesma avaliação também pode ser feita para a quantidade de água, energia, matéria-prima, esgoto, resíduos sólidos produzidos. “A partir daí, cria-se os chamados indicadores de sustentabilidade.”

É a partir desses indicadores que as empresas são capazes de desenvolver programas com a adoção de práticas como o reuso de água, geração de menos resíduos, uso de equipamentos mais eficientes. “Começamos selecionando as práticas que trazem maior retorno. Não que a política de sustentabilidade se restrinja somente à adoção daquelas práticas que aumentem a lucratividade. Vai chegar um momento que será necessário gastar mais dinheiro para melhorar a sustentabilidade.”

Competitividade
O maior interessado em ações sustentáveis são os próprios empresários, salienta Andreoli. No campo, por exemplo, conservação dos solos, o manejo adequado, o plantio direto, o manuseio de palhares são práticas sustentáveis que aumentarão a produtividade. E o marketing ambiental acaba sendo um efeito secundário disso tudo. Quem efetivamente adota políticas de sustentabilidade tem quase o dever de fazer o marketing verde, pois trata-se de um diferencial de mercado e até mesmo um requisito de sobrevivência. “Hoje, quem não estiver fazendo política de sustentabilidade vai ter problemas de competitividade no curto prazo”, frisa o professor do Isae/FGV.

CONSUMIDORES VALORIZAM EMPRESAS COM ESTRATÉGIAS AMBIENTAIS

A pesquisa Top de Marcas também quis saber se os londrinenses possuem o hábito de consumir produtos que levam em consideração o fator ambiental, e entender o grau de importância dado por eles às empresas que demostram preocupação com o meio ambiente em suas atividades. A pesquisa chegou à conclusão que a maioria absoluta (73,6%) diz considerar muito importante as empresas terem estratégias ambientais focadas na redução de impactos ao meio ambiente.

E mesmo que, na prática, quase 35% dos entrevistados afirmem nunca deixar de comprar marcas ou itens específicos devido à preocupação ambiental, cerca de 60% dos consumidores responderam que “sim, com certeza” (29,1%) ou “sim, provavelmente” (31,8%) pagariam mais caro por produtos com menor impacto ambiental. Outros 22,6% informaram que sempre evitam consumir marca ou produtos devido a essa preocupação, 21,3% algumas vezes, e 18,1% raramente.

Em relação às embalagens dos produtos, um terço (33,1%) afirmou nunca levar em consideração as suas características ambientais ao fazer as compras. Porém, mais de 40% dos entrevistados concordam plenamente que embalagens com menor impacto ambiental agregam valor às marcas. Outros 26,8% disseram sempre considerar o fator ambiental das embalagens na sua decisão de consumo, 19,5% algumas vezes, e 16,5% raramente.

Na pauta das questões ambientais, as empresas líderes do Top de Marcas já demonstram ações relevantes em suas estratégias de gestão. Com o objetivo de buscar a redução dos impactos causados ao meio ambiente, as marcas contaram um pouco do que estão realizando para contribuírem com a sustentabilidade ambiental, o que pode ser conferido ao longo desta edição.