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Aos 39 anos, o jornalista Marcelo Frazão alia uma vitoriosa atuação ambiental a um projeto inovador: um veículo de comunicação capaz de unir moradores pelo bem da cidade

Em meados da década passada, o jornalista Marcelo Frazão acreditava conhecer toda Londrina. Como repórter do extinto JL, havia cumprido, nos seis anos anteriores, quase diariamente, pautas sobre os mais diversos assuntos pelos quatro cantos da cidade – manifestações populares, denúncias ambientais, casos de polícia, precariedade dos serviços públicos. Até o dia em que um amigo o questionou. 

– Você conhece Londrina?
– Claro que conheço.
– Conhece nada. Suba na garupa da minha moto que vou te mostrar a cidade.

Nos três meses seguintes, em fins de semana e em raros momentos de folga no jornal, Frazão ocupou a garupa da moto do ambientalista João Batista Moreira Souza, o João das Águas, com quem havia estreitado amizade em reuniões na organização não-governamental Meio Ambiente Equilibrado (ONG MAE). 

Em todos aqueles passeios, provavelmente Frazão tenha passado pelos mesmos lugares onde havia feito centenas de reportagens. Ali, porém, o olhar de jornalista encontrou outra perspectiva. 

Vagaram, ele e o amigo, não por ruas e avenidas, mas pelas bacias hidrográficas de Londrina. Naqueles momentos, não importava o mato alto na zona oeste, a proliferar insetos e esconder bandidos, mas a nascente do Ribeirão Cambezinho; não o tráfego inóspito da Avenida Brasília, mas o trecho agredido do Ribeirão Jacutinga; importava menos a falta de calçadas que aflige mulheres, idosos e cadeirantes, e sim os bueiros deficientes que permitem escoar a poluição difusa e toda a sorte de tranqueiras para nossos rios e lagos; não o abraço puramente turístico na grande peroba e, sim, a importância dos fragmentos florestais.

– Aquele desafio feito pelo João foi determinante na minha vida - avalia um agradecido Marcelo Frazão. Entendi como a cidade funciona, suas conexões. A conexão do bueiro com o rio, do morador com o lixo. Entendi a diferença em se ter coleta de esgoto ou não; o impacto que traz um asfalto degradado ou um terreno baldio sem proteção; como a construção civil impacta a cidade; para onde vai o meu lixo... Enfim, compreendi a dinâmica da cidade. E essa compreensão eu levo a qualquer lugar. Posso visitar uma cidade aqui no Brasil, na América Latina, na Europa, nos Estados Unidos, e consigo entender como funciona o sistema de transporte, a coleta de resíduos. Ao entender como funciona a cidade, você deixa de ser um autômato, deixa de ser consumidor de conteúdo e passa a ser gerador de conteúdo. Hoje faço coisas, na minha rotina, compreendendo o peso delas. É uma compreensão que todo morador deveria ter.

Esse entendimento de como funciona a cidade Frazão levaria para sua atividade profissional e para o trabalho voluntário na ONG MAE, entidade sem fins lucrativos que desde 2001 mantém um olhar atento sobre as mazelas ambientais em Londrina e região. Integrada por profissionais de diferentes áreas, da Biologia ao Jornalismo, da Geografia ao Direito, a ONG MAE surgiu naquele ano como iniciativa de estagiários de Direito da Promotoria de Meio Ambiente indignados com o vazamento de material poluente do Pool de Combustíveis que contaminou água e solo ao longo do Ribeirão Lindóia, naquele que é considerado o maior desastre ambiental de Londrina.

Frazão passou a integrar a equipe de voluntários da ong que, em uma década e meia de atuação, se disse presente no cenário ambiental da cidade, ao colecionar embates históricos – ora com a iniciativa privada, ora com o poder público – em favor de um ambiente mais equilibrado.

De 2001 para cá, a ONG MAE cresceu e amadureceu. O que inicialmente era visto como uma trupe de ativistas juvenis tornou-se um grupo focado na pesquisa e na argumentação técnica, que tem dado dores de cabeça, por exemplo, a idealizadores de usinas hidrelétricas no Rio Tibagi e a empresários e legisladores que botam as manguinhas de fora de olho em áreas – chamadas de zona de amortecimento – em torno da Mata dos Godoy.

A ação mais recente, em julho deste ano, foi a descoberta do que a ong considera o maior desmatamento da história recente de Londrina: uma clareira de 55 hectares de floresta protegida de Mata Atlântica dentro de uma fazenda próxima ao Parque Estadual Mata dos Godoy, na zona sul. Imagens de satélite entregues pela ONG MAE à Polícia Ambiental, ao Ministério Público e ao Instituto Ambiental do Paraná (IAP) mostram perobas com idades estimadas entre 300 e 500 anos derrubadas em uma área equivalente a 60 campos de futebol.

Além da vigilância constante e das denúncias encaminhadas aos órgãos competentes, entre as várias iniciativas construídas pela organização nos últimos anos Frazão destaca três, das quais participou diretamente. Uma delas é o “Londrina Verde”, programa financiado por um banco alemão que georreferenciou 300 propriedades agrícolas no município de Londrina e, com isso, deu aos proprietários suporte para planejar o reflorestamento de matas ciliares e a definição de reservas legais e áreas de preservação, a fim de dar proteção a minas e nascentes.

– Foi a primeira grande incursão da ong em campo - avalia Marcelo Frazão. Os dados colhidos nesse programa subsidiaram o Cadastro Ambiental Rural do município - ele acrescenta.

Ato contínuo ao “Londrina Verde”, a ONG MAE criou e executou o projeto Caminho das Antas, que mapeou a presença do maior mamífero terrestre brasileiro – por sinal, em extinção – em aproximadamente cinco mil hectares ao redor da Mata dos Godoy. Ainda objeto de caça, a anta necessita de grandes áreas para sobreviver. O animal é um bioindicador, ou seja, a presença dele significa que determinado ambiente encontra-se razoavelmente equilibrado. Fezes das antas carregam sementes de grandes árvores, por exemplo.

– Detectamos pegadas com fotos noturnas e, a partir daí, investigamos os fragmentos de Mata Atlântica ao redor da Mata dos Godoy, onde ela se sente mais segura. Descobrimos armadilhas dentro e fora da Mata dos Godoy, fizemos fotos, filmes, e entregamos para a polícia.

Marcelo Frazão destaca também o “Na Pegada do Parque”, um projeto permanente da ONG MAE para formação de corredores ecológicos de fauna e flora em áreas degradadas. O projeto mobiliza empresas que, assim, compensam emissão de carbono gerada por suas atividades. O plantio se dá em áreas monitoradas pela ong. Até o fim deste ano deve ser “inaugurado” o Minibosque da UEL, que vai ligar o Horto da própria universidade à margem florestal do Córrego Esperança, com o plantio de 20 mil árvores nativas da Mata Atlântica.

– Outro aspecto importante do trabalho da ONG MAE é que os dados e pesquisas acumulados subsidiaram muitos documentos importantes para a cidade, como o Plano Municipal da Mata Atlântica, que ajudamos a elaborar. As denúncias podem ser mais visíveis, mas a gente colabora com as políticas públicas. O Plano Municipal de Arborização, que normatiza a poda de árvores, quais espécies podem ser plantadas e onde plantá-las, por exemplo, foi redigido pela ong; coube aos vereadores apenas a aprovação - ressalta Frazão.

Projetos, aliás, passaram a ser uma especialidade deste jornalista que nasceu há 39 anos em Campinas-SP, cresceu jogando vôlei de areia nas praias de Guarapari-ES e cursou Jornalismo na UEL entre 1997 e 2000, com passagens profissionais por Folha de Londrina, O Diário (Maringá), JL e as emissoras de rádio CBN, Tabajara e Paiquerê. Inquieto, cursou três anos de Direito e quase completou uma pós-graduação em Filosofia, até se deparar com a área de projetos.

– Depois que aprendi a dinâmica da cidade, fiz um MBA em “Gestão de Projetos” na FGV (Fundação Getúlio Vargas). Estava incomodado com aquela estória de que ambientalista não sabe fazer projeto. No curso, aprendi a fazer qualquer coisa que eu queira.

O trabalho de conclusão de curso na FGV resultou no que a cidade hoje conhece como “Ecometrópole”, um programa de Ecocidadania e Gestão Compartilhada. No real, o TCC de Frazão sistematizou toda uma experiência adquirida durante décadas por ambientalistas de Londrina e que, agora, está reunida em um único documento, disponível na internet.

O Ecometrópole é uma proposta ampla cujo objetivo é promover uma nova forma de pensar, compreender, atuar e gerir a Região Hidrográfica de Londrina. Estimula a gestão compartilhada entre moradores, empresas, instituições e governantes, de forma solidária, relativo a todas as questões coletivas: transporte, mobilidade, coleta de resíduos, preservação ambiental – e muito mais. 

Trata-se de um programa absolutamente completo para se pensar a vida comunitária como um todo, quase sempre abraçado pelos candidatos a prefeito – e quase nunca implementado. Por que, afinal?

– Não acredito que os processos devam partir dos governantes - explica Marcelo Frazão. Se se envolvessem se demonstrassem na prática, se conseguissem mobilizar, os líderes locais poderiam ter um papel poderoso. Mas eles não compreendem a dinâmica da cidade. No fundo, o prefeito, qualquer um, é só um morador com os mesmos hábitos de qualquer outro morador comum. A parte mais gostosa de governar, e mais importante, que é a de mobilizar as pessoas, chamá-las para o desafio, eles não fazem. São pessoas que não acordam com vontade para isso. Ninguém se salva de um afogamento puxando a própria cabeça. É preciso envolver os moradores. E isso nossos governantes não sabem fazer.

Ao fazer esse tipo de constatação, Frazão se refere a figuras como Antanas Mockus, o filósofo e professor universitário que, em dois mandatos de prefeito, mudou a cara de Bogotá, ao reduzir drasticamente a violência na capital colombiana em meio à guerra civil entre Exército, paramilitares de direita e guerrilheiros de esquerda. 

De 1995 a 1997 e de 2001 a 2003, Mockus – com um estilo excêntrico, “louco” – liderou a cidade em um esforço para resgatá-las das mãos dos narcotraficantes. Sem muitos recursos, recuperou os espaços públicos ao juntar, neles, cidadãos de diferentes classes sociais. Espalhou ciclovias que passam dentro dos condomínios fechados. Dramatizou as mortes no trânsito, ao pintar uma estrela no asfalto em todos os pontos onde um pedestre tivesse morrido atropelado. Escalou 400 mímicos para, em cenas-relâmpago, constranger os motoristas a respeitarem a faixa de pedestres. Distribuiu 700 mil cartões vermelhos para que os próprios motoristas fiscalizassem uns aos outros. A taxa de homicídios caiu de 80 para 18 por cem mil habitantes. As mortes no trânsito caíram pela metade. A arrecadação de impostos triplicou.

Por acreditar que, por serem mais do mesmo, nossos líderes não têm esse poder de mobilização, Marcelo Frazão defende abertamente a ideia de que são os moradores que devem se mexer em prol do bem comum. O governo não presta? É justa sua indignação. O Congresso é corrupto? Beleza! O Judiciário anda muito mais ou menos? Certo! Mas o que importa é a sua cidade e o ponto é: o que você está fazendo para melhorá-la?

Foi essa filosofia de vida que levou Frazão a se envolver em um projeto inovador que ganha corpo a cada dia. Com o fechamento do JL, ele se uniu a dois colegas jornalistas – Ranulfo Pedreiro e Chris Mattos – para criar a Associação “Todos por Londrina”, ou TP1, uma start-up de comunicação e tecnologia social de base interativa para, conceitualmente, impulsionar mais e melhores conexões entre os moradores da cidade. 

O TP1 produz conteúdo e o abriga em um site. Lá estão, por exemplo, a transmissão ao vivo, via Facebook, da reinauguração do Cine Teatro Ouro Verde, a mostrar a entrada dos convidados ilustres para a noite de gala e, principalmente, a manifestação que, do lado de fora, aguardava o governador Beto Richa. Assim como a declaração de amor àquele espaço feita pela atriz Fernanda Montenegro.

No site há documentos “que você não vê em outros lugares”, como a sentença judicial contra os envolvidos na Operação Publicano. Há diversas matérias sobre fatos legais da cidade, como o plantio de orgânicos. Porém, diferentemente de uma reportagem convencional, o TP1 levou moradores à chácara da família Rampazzo, para mostrar a eles onde e como se produz alimentos mais saudáveis. É o que Frazão define como “amarrar as pontas”. Criar vínculos. Conectar pessoas.

– É um novo modelo de comunicação - diz Frazão. É jornalístico, mas não só. É um modelo de conexão, uma rede de moradores que se reconhecem. É o poder das pessoas. Nosso modelo de jornalismo não faz cócegas. Apenas o relato jornalístico não faz as coisas melhorarem. Falar do problema não elimina o problema. É jornalismo com ação direta. Ali, é proibido ser imparcial. Temos de aprender a nos juntar. Isso é anterior a qualquer coisa. Não tem a ver com Dilma, Lula, Temer, Aécio. Tem a ver com gente, conosco, os moradores. Sem esse vínculo, a gente não faz um país.

Ação direta significa, também, desenvolver projetos que conectem pessoas, como as rodas de leitura. Em parceria com uma fundação paulista, o TP1 formou, até agora, 16 mediadores que, voluntariamente, promovem rodas de leitura – na verdade, de conversa – em vários pontos da cidade, criando vínculos entre pessoas que muitas vezes moram a poucos metros de distância e não conhecem nada a respeito de seu próprio vizinho. 

– A chave de tudo é o envolvimento - afirma Marcelo Frazão, que experimentou esse conceito em outra situação, ao desenvolver, em 2016, um projeto com a ONG MAE batizado de “A Bacia da Minha Escola”, um projeto ambiental, com recursos do programa Proverde, da prefeitura. Durante oito meses, Frazão e equipe visitaram três colégios estaduais (Dario Veloso, Benjamin Constant e a Escola Estadual do Patrimônio Regina) para investigar uma questão instigante: por que os adolescentes jogam lixo na rua?

Pesquisa com 200 crianças e adolescentes daqueles colégios revelou que 85% deles atiravam objetos na rua. E dá-lhe passeios para conhecer a bacia hidrográfica local, a mostrar o bueiro que é o “ralo” do bairro, onde foi encontrado todo tipo de sujeira; a visitar cooperativa de reciclagem para mostrar que a latinha de refrigerante, ao invés do bueiro, deveria estar ali, gerando renda para as pessoas. E conversas tête-à-tête, olho no olho, com cada um, não para fazer aquela cobrança impositiva, mas para perguntar: “O que eu preciso fazer para você deixar de jogar lixo no chão?”

– Contava a eles minha própria história, de quando eu mesmo jogava coisas na rua - pontua Frazão. Assim, você desarma o adolescente por completo. A maior alegria era quando alguém falava: “eu jogava muito, agora não jogo mais”. A realidade faz com que as pessoas aprendam. É disso que precisamos. De um choque de realidade.